Hyundai e Kia, marcas inseparáveis e pontas de lança de um fortíssimo conglomerado sul-coreano, hoje um gigante da indústria automóvel, têm vidas separadas em Portugal. E têm procurado posicionamentos diferentes para produtos que, muitas vezes, partilham mais do que a mesma base e motorizações. De um lado, na Kia, juventude e uma estética mais ousada e europeia, numa estratégia apadrinhada pelo próprio grupo; do outro, na Hyundai, uma imagem mais institucional e conservadora, justificada pela afirmação dos genes, a superioridade do nome de casa-mãe. E, assim, porque, no todo, importava afirmar e crescer, as águas correram separadas, a concorrência tem passado despercebida. Mas algum dia o quadro tinha de começar a mudar e chegámos a um momento curioso, com o lançamento, quase simultâneo, de interessantes SUV do segmento B com os dois emblemas: Hyundai Kauai e Kia Stonic.
Destra vez, há plataformas distintas: o Kia é uma espécie de Rio com as calças “arregaçadas”; o Hyundai usa uma plataforma nova, que permite propor a tração integral e anunciar para 2018 uma motorização elétrica, propostas, em princípio, vedadas a “este” Stonic por impossibilidade técnica. Pelo menos, impossibilidade técnica.
A questão não é despicienda mas, a este nível da oferta, estilo, preço e equipamento fazem toda a diferença, principalmente quando se fala de um tipo de automóvel que está na moda, ganha mercado em todo o lado, e de marcas de alguma forma ainda penalizadas pelos estigmas resultantes do peso do emblema – preconceito que tem vindo a diminuir, como provam os números e, afinal, o produto justifica. Mas… ainda há um mas para muita gente em Portugal, onde estas coisas têm a importância própria de um mercado muito especial (e atente-se aos resultados das marcas premium…) e de uma sociedade que valoriza o comezinho.

O Kia Stonic é o segundo SUV do Grupo Hyundai apresentado no espaço de pouco tempo e como o Kauai beneficia de uma campanha de preços muito agressiva até ao fim do ano

Garantias como argumento
A Kia, salva pela Hyundai e promovida pela respetiva associação ao gigante automóvel sul-coreano, tem jogado forte no capítulo das garantias, sete anos é um argumento fortíssimo, prazo que torna até quase vulgares os cinco anos de cobertura e riscos assegurados pela marca líder de grupo. São provas de confiança, apostas ousadas e seguros extra a considerar por quem compra um automóvel.

A conjunção Kauai/Stonic é um momento curioso na vida do grupo Hyundai, especialmente entre nós, porque os dois importadores nacionais assumiram uma política de preços superagressiva

As diferenças entre uma e outra não podem deixar de ser vistas como algum protecionismo, necessário para impor uma marca renascida das cinzas e hoje a gozar de razoável notoriedade, mas tinha de chegar a hora de pôr os pontos nos ii, a exemplo do que sucedeu noutros grupos obrigados a gerir oferta “partilhada” por várias marcas. São exemplos o alargado Grupo Volkswagen (VW, Audi, Skoda, Seat) e o Grupo PSA (Peugeot, Citroën e agora também Opel). De uma forma ou outra, todos têm resolvido, ou estão a resolver as questões de coexistência de modo mais ou menos pacífico. Partilhando e diversificando no respeito das diferenças.
A conjunção Kauai/Stonic é, pois, um momento curioso na vida do Grupo Hyundai, de modo especial entre nós, porque os dois importadores nacionais assumiram uma política de preços superagressiva e, num altura complicada para os diesel de baixa cilindrada, apostando forte nas “pequenas” motorizações a gasolina, cada vez mais importantes nestes segmentos e para um público que aprendeu a fazer contas.
Preços de arrasar
A Hyundai surpreendeu com a campanha de que aqui falamos em cima da hora com um preço de 16 900 euros para o Kauai motorizado pelo três cilindros 1.0 de 120 cv e com razoável equipamento. Pois bem: a Kia baixa a parada e, para idêntica motorização, tira 200 euros e oferece a navegação. São campanhas para durar até ao fim do ano e vai ser curioso acompanhar as vendas de uma e outra, até porque a Kia tem uma versão de entrada ainda mais barata, propondo o “velho” 1.2 por 13 400 euros! E também porque as “coisas” não são exatamente iguais…
O consumidor só tem de aproveitar e agradecer esta ”guerra” sul-coreana, a prometer que as mil unidades Kauai e Stonic estimadas por ambas as marcas para as vendas de 2018 são números de ambição modesta… E os outros que se cuidem. Porque, e insisto nesta convicção, os sul-coreanos não brincam em serviço, como prova a arregimentação de nomes sonantes junto da concorrência – o designer Peter Schcreyer, que deu o toque de Midas ao Kauai depois de reconstruir a imagem da Kia – é só um exemplo.
Os sul-coreanos têm cumprido com tanto rigor aquelas promessas que alguns, há um vintena de anos, viram como fantasia que nem falharam nas datas para a entrada no top-ten e no top-five dos construtores… o grupo dos gigantes da indústria automóvel entre os quais se mantêm por direito próprio. Convém não esquecer pois está longe de ser um acaso.
Kauai e Stonic estão aí para o provar. Experimentem e vejam a diferença. Porque também existe!